Feliz dia da mulher. Para quem?





Hoje eu acordei e fui na academia, lá ganhei um bombom. Ao retornar, chequei o whatsApp e todos os grupos tinham mensagens a respeito do dia das mulheres.


Todas reforçavam estereótipos de mulher guerreira (que dá conta de tudo e não desiste nunca), subserviente, multitarefas e responsável pelo bem estar (físico e emocional) de todos a sua volta- ainda o faz de forma amorosa e simpática, com um sorriso nos lábios. Ainda não recebi nenhuma mensagem que fala da beleza da mulher. Quem sabe até o meio dia.


E qual o problema disso(de novo)?

Receber homenagens vazias – como flores e bombons – que não mudam a desigualdade salarial, o desrespeito, a violência e a subrepresentatividade anestesia mulheres e paralisa a luta por condições melhores.


Impede de discutirmos que mulheres não são guerreiras, são sobrecarregadas e o trabalho invisível beneficia homens e o próprio sistema, em detrimento de suas aspirações, carreira, lazer e saúde.


Tira o foco das atrocidades sexistas ditas por um parlamentar sobre a vulnerabilidade de mulheres em uma zona de guerra.


Impede que problematizemos a roda de debate de direitos das mulheres compostas só por homens.


Desvia o foco de que ocupar espaços é necessário porém cansativo, já que a problematização é geralmente vista como algo negativo e a cobrança de sermos “leves e descontraídas” está sempre à espreita da nossa fala.


8/3 costuma ser um dia difícil pra mim. Me dói ver mulheres que eu gosto reproduzindo estereótipos vazios nos grupos de whatsapp da família, da faculdade e da própria OAB, porque escancara o quão longe ainda estamos – não só da conquista dos direitos - mas principalmente da consciência da necessidades deles.


O dia 8 de março não é sobre flores, é sobre as dores de ser mulher em um país que mata e estupra mulheres, que não valoriza trabalho doméstico e de cuidado, que retrocede os direitos sexuais e reprodutivos, que empurra mulheres para a maternidade solo e, ao final de tudo, as “homenageia” chamando de guerreiras.


A todas as minhas referências femininas, às mulheres que me dão sustentação –sejam elas afetivas ou profissionais – meu abraço exausto e solidário, de reconhecimento e admiração.

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